quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Inexistência da imparcialidade jornalística

Seria possível a objetividade no jornalismo? O repórter, ao noticiar o fato, expõe em sua matéria a absoluta verdade? O que é a objetividade jornalística? Essas são questões que não querem calar na boca dos jornalistas e pesquisadores do assunto.

Segundo o teórico Josenildo Luís Guerra, “objetividade é o conceito de verdade”. Para ele, “é a propriedade que permite ao discurso a possibilidade de ser fiel ao fato”. Noutras palavras o jornalista, ao realizar bem o seu trabalho, materializando o que foi apurado e checado, entrevistando fontes de diferentes opiniões para trazer o pluralismo à reportagem, pode estar explicitando ao receptor a verdade do acontecimento.

Por outra corrente de pensamento, Eugenio Bucci, presidente da Radiobrás e autor do livro Sobre Ética e Imprensa (Cia. das Letras) conclui que “a verdade dos fatos é sempre uma versão dos fatos”.

Esse conceito (o qual grande parte dos teóricos de jornalismo defendem) vê a objetividade jornalística como algo inalcançável. “A objetividade absoluta, entendida como o conhecimento absoluto e total da realidade, não existe”, complementa a doutoranda em comunicação Liriam Sponholz.

O jornalista, acima de tudo, tem o dever com a população. Porém é ufanismo pensar que é detentor do poder de narrar em sua matéria o espelho da realidade. Pois os fatos, por mais concretos que sejam, nada mais são que uma visão, uma interpretação daquele que os enxerga.

Quando um repórter vai atrás da notícia, pesquisa, seleciona os entrevistados, apura e confirma os dados, ao redigir seu texto estará narrando uma representação do caso, por mais ampla que possa ser sua reportagem – o que não significa que uma matéria não traga consigo a veracidade. Do contrário, não existiria mais de um jornal diário, radiojornal ou telejornal.

Mas, se a realidade não é objetiva, tudo sempre possui mais de um lado, quais são os pré-requisitos para que uma matéria seja publicada? Quando pego um jornal em mãos e leio uma reportagem, não estarei diante da verdade indubitável?

Partindo do princípio de que “o relato, qualquer que seja ele, é um discurso e, como tal, é inevitavelmente ideológico”, como diz Bucci, a reportagem deve mostrar claramente as informações para o leitor ou espectador, com o maior número de fontes divergentes possíveis para pluralizar a matéria e garantir a singularidade, possibilitando este consumidor da notícia interpretá-la à sua maneira.

Além disso, o texto possui a unicidade do jornalista que o redige; por mais implícito que possa transparecer, ele estará deixando sua marca - que constitui a formação de seu caráter e sua credibilidade, já que graças a sua competência e suas técnicas que seu trabalho é valorizado - desmistificando a existência da imparcialidade e isenção. Porque, de acordo com Felipe Pena, autor de Teorias do Jornalismo (Editora Contexto) o jornalista, como indivíduo, possui suas ideologias, partidarismos, simpatias e diversas idiossincrasias que interferem na construção de sua realidade (no caso, explicitada em sua matéria).

As fontes também desenvolvem um importante papel para que a notícia tome determinado posicionamento. Com os relatos em mãos, o repórter faz utilização das aspas não só como método de complementação informativa para enriquecer seu texto, mas também, muitas vezes, como estratégia discursiva para dar rumo a ele, não se comprometendo com o discurso alheio (algo como tirar o seu da reta e jogar na fala do entrevistado) e denominando-se neutro diante do fato.

Esse processo de noticiabilidade, intervida por fontes e ideologias individuais também pode sofrer moldes se não se enquadrar nas avaliações do editor ou até mesmo do jornal em questão. Mas essas são questões de ética, de interesses (que podem alterar a notícia, como o caso da edição do Jornal Nacional, em 1989, no debate dos candidatos à presidência Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, que pode ter sido motivo de influência na votação do público, que elegeu Collor – favorecido pelos cortes - com 50% dos votos contra 44% de Lula, que acabou sendo prejudicado) dos conglomerados para atingirem seus objetivos.

Diante dos inúmeros direcionamentos que uma reportagem pode chegar, das mudanças que ela pode ter com a intervenção dos editores - que não presenciaram o acontecimento - e a adaptação do que foi escrito para o público, conclui-se que a objetividade textual, em que a absoluta verdade está presente para que todos vejam, não existe.

Para que o trabalho de um jornalista possa ser realmente congratulado, a objetividade desse profissional teria que estar no método de pesquisa, na apuração e coleta de dados (como defendia Nelson Traquina, “ela traz maior segurança quanto à verossimilhança do fato”); para que a reportagem tenha uma ênfase relevante, mostre à população informações que interfiram no seu cotidiano e os faça enxergar que o que está exposto não é a verdade incondicional e inquestionável, mas sim, a melhor versão possível da realidade.

[trabalho realizado para a disciplina Teoria do Jornalismo, com ajudas de Raquel Moraes e Cleber Arruda na elaboração do texto]

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